TCC no tratamento da anorexia – Saiba como aplicá-la e obter resultados

blog

Entenda mais sobre como a TCC atua no tratamento da anorexia em 9 tópicos.

Os desafios e a complexidade do Tratamento da Anorexia.

 

 

1. O que as pesquisas atuais têm mostrado em relação a etiologia do Transtorno?

A anorexia nervosa é uma disfunção alimentar, caracterizada por uma rígida ou insuficiente dieta alimentar. Ela é vista como um transtorno psicológico, ligado à baixa autoestima, dificuldades de interação social e preocupação excessiva com a imagem corporal.

Os indícios que caracterizam a anorexia é o baixo peso corporal e consequentemente baixo IMC, chegando em alguns casos com IMC de 11, 14, o que indica internação com urgência em muitos casos.

A anorexia é uma doença complexa por envolver componentes psicológicos, fisiológicos e sociais, especialmente no que se refere a um padrão de beleza idealizado. É mais comum em mulheres e sua causa está ligada principalmente na adolescência, quando problemas com a autoimagem, dismorfia, dificuldade em se sentir aceito por um grupo e bullying são mais comuns. Há também evidência que apontam histórico de abuso sexual como uma das causas para a anorexia.

Existem estudos que mostram causas genéticas envolvidas, que associam filhos de pais mais perfeccionistas e com preocupação excessiva com a forma corporal, a terem maior probabilidade de desenvolver a doença.

A anorexia pode ser dividida em dois pode ser do subtipo restritiva ou purgativa. No Brasil a anorexia atinge, hoje, em torno de 21 a 22% das mulheres entre 15 a 25 anos com sintomas da doença e consequentemente com maior risco de desenvolver a anorexia.

2. No seu ponto de vista, quais os desafios que permeiam o atendimento de um paciente com Anorexia?

O maior desafio é envolver o paciente na adesão do tratamento. O padrão de beleza que ele acredita precisar ter para se sentir bem é algo inatingível, causado pela distorção da imagem corporal que tem de si. Dessa forma, o processe de emagrecimento, no entender do paciente, não tem fim.

Outro desafio é envolver a família, que tenta a todo custo negar a doença, o que leva a uma demora no início do tratamento, fazendo que na maioria dos casos esses pacientes chegam em nossos consultórios em estado crônico.

Infelizmente os dados nos mostram que, mesmo com o tratamento, cerca de 30% dos pacientes voltam a desenvolver anorexia em menos de 5 anos pós-tratamento. Por isso o grande desafio também é desenvolver um trabalho multidisciplinar para que esses riscos diminuam ainda mais, exigindo uma integração e consenso de toda equipe.

3. Diante destes desafios, qual a conduta indicada para lidar com este tipo de paciente?

A melhor conduta é não trabalhar sozinho. É muito importante ter uma equipe multidisciplinar com psicólogo, psiquiatra, nutricionista e se possível um médico clínico- geral, ou de uma especialidade como cardiologista ou endócrino, fazendo parte da equipe também.

Em alguns casos é importante a internação, pois o nível de exigência da magreza é tão alto por esses pacientes que eles correm risco de morte. Em decorrência da anorexia os pacientes também desenvolver doenças associadas como doenças renais, hipotireoidismo, alterações de potássio gerando um risco grande de parada cardíaca, entre outros problemas. Dessa forma, o ganho de peso é o primeiro passo e o mais desafiar para os clínicos.

Outro desafio é envolver a família para que ela colabore e tenha comportamentos assertivos com a paciente. Como ficar sempre junto da paciente, verificar o banheiro, as quantidades de alimentos ingeridos entre outras atitudes.

Iniciar o mais rápido a terapia psicológica para ir desconstruindo as crenças desenvolvidas com a autoimagem, autoestima, autoconfiança e a responsabilidade com a própria vida é fundamental. Além disso é extremamente importante trabalhar a modificação do comportamento envolvido no processo alimentar.

4. Em relação aos comportamentos, quais os mais clássicos e esperados neste transtorno?

A anorexia pode ser dividida por tipos: restritiva e purgativa.

O subtipo restritivo é quando a pessoa se nega a comer ou come muito pouco. Muitos pacientes se negam inclusive a beber agua por medo de engordar. Se restringem também de qualquer atividade física.

O subtipo purgativo, além de apresentar todas as características descritas acima, o paciente faz uso de laxantes, diuréticos, moderadores de apetites e provocam vômitos.

Nesses dois tipos a distorção da imagem corporal é presente, fazendo com que o paciente não perceba o quanto esta magro, aumentando a sua obsessão por emagrecer ainda mais e, consequentemente, diminuindo seu peso.

5. Quais as estratégias mais relevantes para o tratamento?

As estratégias à serem usadas são técnicas que auxiliam na percepção da distorção da imagem corporal, melhora as distorções cognitivas e os comportamentos relacionados a alimentação, dessa forma o paciente consegue aderir a dieta e aumentar o peso.

Mas para que isso aconteça é muito importante que se estabeleça uma aliança terapêutica entre paciente e terapeuta. O paciente precisa sentir que esse profissional tem empatia por ele, que entende o seu medo de engordar e que não irá permitir que ele perca o controle do seu peso.

O Tratamento medicamentoso é outra estratégia importantíssima, já que o acompanhamento de um psiquiatra é muito importante na maioria dos casos.  Os medicamentos mais usados no tratamento psiquiátrico da anorexia são os antidepressivos e ansiolíticos, pois esses tem mostrado resultados moderado nos pensamentos obsessivos e compulsivos, baixa autoestima, instabilidade e estresse que estão associados no quadro de anorexia.

6. Qual a influência da internação no prognóstico da doença? 

A internação pode ser muito importante para a sobrevida da paciente, sendo necessária em alguns casos. O prognostico mais importante é a manutenção da vida e, dependendo do trabalho realizado, o paciente saiu com mais expectativa e esperança de vencer o transtorno.

Muitas vezes eles têm contato com outros pacientes que vivem o mesmo dilema, o que traz um sensação de conforto durante o tratamento.

A consequência negativa pode ser a sensação que alguns pacientes relatam de fracasso, de diminuição da auto estima, vergonha e o sentimento de humilhação. Quando bem trabalhados na terapia, costuma ter pouco impacto no processo.

7. Qual a forma mais adequada para psicoeducar o paciente quanto ao uso e manutenção do tratamento medicamentoso?

Primeiramente é preciso psicoeducar em relação a doença, ajudando o paciente a entender que ela gera nele pensamentos obsessivos e compulsivos, tristeza, distorção de imagem corporal e ansiedade. Além do trabalho psicoterápico, a medicação tem a função de diminuir todos esses sintomas e é importante que o paciente seja capaz de compreender que todo o processo é necessário para que ele alcance melhora e bons resultados.

Costumo dizer que é como tratarmos uma infecção: tomando analgésicos e antibióticos o prognostico da doença costuma ser melhor. 

8. Dentro da TCC, quais as estratégias mais relevantes para o tratamento?

A primeira estratégia dentro da TCC no tratamento da anorexia é o estabelecimento da aliança terapêutica, da empatia e confiança. Podemos trabalhar com a reestruturação cognitiva, mostrando os pensamentos, sentimentos e comportamentos envolvidos na anorexia. Trabalhamos com o perfeccionismo na reestruturação cognitiva e podemos utilizar a análise funcional do comportamento de restrição do alimento e no uso de medicamentos que provocam a purgação como laxantes, diuréticos e também o vômito. Além disso, podemos trabalhar também com técnicas como a prevenção de resposta, relaxamento, mindfullness e o desenvolvimento da auto aceitação e compaixão por si.

9. Como psicoeducar a família, uma vez que é determinante na evolução do caso? É muito importante aderir a família ao tratamento. 

Primeiro passo, psicoeducar em relação ao transtorno. Ajudar essa família a aceitar, desenvolver empatia e acolher esse paciente.

A família tem um papel importante pois passa grande parte do tempo com o paciente e ela podem auxiliar no tratamento, observando os comportamentos do paciente, se ele está se alimentando bem, se esta vomitando, tomando remédios purgativos etc. Além deste papel, é importe que a família sempre incentive o paciente a superar seus medos e dificuldades, reforçando os comportamentos positivos emitidos por ele na busca de superar suas dificuldades.

Venha ampliar e aprimorar sua atuação profissional conosco. Participe do curso em Terapia Cognitivo Comportamental ministrado pela equipe do AMBAN (Ambulatório de Ansiedade) -USP – no Instituto Cognitivo Comportamental de Marília – SP. Próxima turma em agosto/2016.  

Postado em Psicologia e com as tag(s) , , , .