Personalidade Borderline: diagnóstico e tratamento através da TCC

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No texto de hoje conversamos com a Professora Doutora Roseli Lage de Oliveira, que integra o corpo docente da USP no Curso de Aperfeiçoamento em Terapia Cognitivo Comportamental, sobre como são realizados o atendimento e tratamento da personalidade Borderline através da TCC, suas abordagens e resultados esperados. Confira:

1. O que as pesquisas atuais tem mostrado em relação a etiologia do Transtorno?

O Transtorno da Personalidade Borderline é mais comum entre parentes de primeiro grau. Há risco aumentado de desenvolver a doença se há parentes que apresentam transtornos por uso de substâncias, depressão, transtorno bipolar e transtorno da personalidade antissocial. Além do fator genético associado, estudos mostram que pessoas que desenvolvem o Transtorno da Personalidade Borderline têm uma desregulação emocional associada com um ambiente altamente invalidante e disfuncional.

Neste caso, são pessoas que possuem uma desregulação biológica no sistema de regulação emocional, possivelmente no sistema límbico, que associado à um ambiente pouco favorável e agressivo, tende a intensificar essa vulnerabilidade emocional. Geralmente, estes pacientes tiveram na infância história de abuso físico ou emocional, negligência parental, pais ausentes ou altamente invalidantes nas suas necessidades emocionais, ou ainda, podem ter sofrido perda parental prematura (morte de um dos pais, divórcio).

Os estudos mostram que a combinação de fatores, genéticos, neuroquímicos e ambientais estão associados ao desenvolvimento do Transtorno da Personalidade Borderline.

2. No seu ponto de vista, quais os desafios que permeiam o atendimento de um paciente com Transtorno de personalidade Borderline?

Por ser um Transtorno da Personalidade, este por si só já é um grande desafio na prática clínica. Muitas vezes, estes pacientes não veem sua personalidade como problema e buscam a terapia por problemas de vida ou outros quadros psicopatológicos (como depressão, por exemplo). Há uma tendência de culpar o outro ou o mundo pelo que lhe acontece e não em identificar seu modo disfuncional na gênese dos problemas. Mais especificamente, no Transtorno da Personalidade Borderline, são comuns os comportamentos de automutilação, parassuicidas e de tentativas de suicídio.

Normalmente estes são recorrentes e colocam em risco a vida do paciente e, inevitavelmente, afeta a relação terapêutica. A instabilidade emocional é outro desafio na terapia, pois apenas a comunicação de uma ausência do terapeuta, seja por motivo de doença, ou mesmo para participar de um congresso, pode ser vista pelo paciente como um abandono e pode ter consequências desastrosas.

 3.Diante destes desafios, qual a conduta indicada para lidar com este tipo de paciente?

Como em qualquer outro caso na abordagem cognitivo comportamental, faz-se necessário uma boa formulação do caso para que se possa identificar as crenças e os esquemas presentes e quais os antecedentes e consequentes dos comportamentos problema.

O terapeuta deve ter um cuidado especial para não reforçar o repertório inadequado do paciente, como os comportamentos parassuicidas, as automutilações e as tentativas de suicídio.

Há autores que recomendam que seja feito um contrato com o paciente, discutindo os riscos destes comportamentos, combinando que por algum tempo ele se comprometerá com o tratamento e em não ter estes comportamentos, se o fizer, o terapeuta não o atenderá por cerca de 24 horas (os contatos telefônicos destes pacientes são muito frequentes), como uma forma de não reforçar estes comportamentos inadequados.

Claro que esta é uma abordagem complexa que não pode ser simplificada, deve ser precedida de uma boa avaliação cognitivo comportamental, uma boa aliança terapêutica e uma adequada formação do profissional que se propõe a atender estes pacientes.

4. Em relação aos comportamentos, quais os mais clássicos e esperados neste transtorno?

Nos quadros de Transtorno da Personalidade Borderline há um padrão recorrente de instabilidade emocional, que permeia todas as áreas de sua vida, afetando as diversas áreas, mas principalmente os relacionamentos. Nota-se que são pessoas que mencionam um sentimento crônico de vazio e que buscam, por meio de atitudes desesperadas, aliviar sua dor emocional, neste caso, as tentativas de suicídio, comportamentos parassuicidas e as automutilações são muito comuns. Também são frequentes terem comportamentos impulsivos autodestrutivos, como gastos excessivos, sexo irresponsável, direção perigosa, compulsão alimentar, abuso de substâncias, e outros.

5. Quais as estratégias mais relevantes para o tratamento?

Após uma boa avaliação do paciente, o processo terapêutico poderá identificar quais as melhores estratégias para cada caso. Validar as emoções dos clientes e trabalhar com regulação emocional pode ser um importante aspecto no tratamento. O treino de habilidades sociais também é fundamental para o desenvolvimento do processo terapêutico, pois estes clientes geralmente não possuem um repertório socialmente habilidoso para lidar com os problemas e com as pessoas, acarretando em mais problemas.

A identificação das crenças, esquemas e a reestruturação cognitiva podem ser especialmente úteis para lidar com pensamentos dicotômicos e absolutistas (fracasso/sucesso, amor/ódio, bom/mau).

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